
Atos pode ser considerado uma continuação do livro de Lucas, mas tem sua própria mensagem missionária. Em Atos 1:8 encontramos uma ordenança:
“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas TANTO em Jerusalém, COMO em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”.
Os discípulos de Jesus estavam pensando em um reino mais restrito a Israel, mas Jesus lhes expandiu os horizontes, demonstrando que seu reino e seu desejo se estendiam a todas as nações da terra.
Tem sido corretamente observado pelos estudiosos que Atos 1:8 é um índice do próprio livro de Atos. E, realmente, o evangelho começou a ser disseminado em Jerusalém (capítulos 1 ao 7), depois alcançou Samaria (capítulo 8), e, finalmente, impulsionado pela conversão do “apóstolo dos gentios”, expandiu até alcançar Roma e os confins da terra (capítulos 9 ao 28).
Existe uma corrente teológica que usa Atos 1:8 para defender a ideia de que a igreja deve envolver-se em missões primeiramente no seu bairro, para depois olhar para as nações. Mas perceba que no texto encontramos a expressão TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria E até aos confins da terra. As palavras “TANTO”, “COMO” e “E” indicam uma continuidade simultânea e não uma ordem sequencial.
Se eu disser que numa cesta tenho TANTO maçãs, COMO laranjas E bananas, estou dizendo que dentro da cesta eu tenho todas essas frutas de forma simultânea. Deus queria que a igreja missionária TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria E até os confins da terra se tornasse possível.
Dizer que há tanto que fazer aqui, sem pensar em outras partes do mundo é uma negação da natureza universal do evangelho e da natureza bíblica da missão.
Precisamos lembrar que nenhum discípulo era de Jerusalém, mas Deus havia mandado que eles permanecessem ali (Lucas 24:49) até o pentecostes (Atos 2:1-4) porque havia um plano estratégico nisto. Atos 2:5-11 nos mostra que em Jerusalém havia pessoas de todas as nações.
“E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. […] Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.”
Portanto começar por Jerusalém não era uma questão de preocupação geográfica, mas sim cultural. Ao começar por Jerusalém Deus estava olhando para todos os povos. O Espírito Santo é derramado no povo de Deus em Jerusalém para levar o evangelho até os confins da terra.
E a missão aos confins da terra não necessitava esperar que a missão em Jerusalém terminasse. Mas, parece que os Apóstolos não entendiam isto, assim como não entendiam que era o Espírito Santo que daria o impulso para cruzar as barreiras em cada etapa e não suas próprias estratégias.
Por várias vezes o Espírito Santo teve que tirá-los de sua “zona de conforto.” Para que saíssem de Jerusalém, usou a perseguição (Atos 8:1) para que pregassem aos gentios, tementes a Deus, usou visões (Atos 10), para que a igreja de Antioquia mandasse uma equipe de missionários, outra vez usou visões (Atos 12), para que a igreja de Jerusalém aceitasse aos gentios como membros da igreja, usou uma mensagem direta (Atos 15:28) e para que Paulo pregasse na Europa usou obstáculos, circunstâncias e uma visão (Atos 16:6-10).
